No dia da minha morte prepare margaridas, grandes, amarelas e brancas.
Não deixe que me pintem muito.
Não quero parecer um palhaço, nem corado ou saudável demais, afinal quem se importa?
Peça para me vestirem claro.
Uma bata branca bonita, uma calça larga e com as barras desfiadas, cubra meu corpo de margaridas, e não desça a tampa, não ainda.
Deixe uma música suave, pode ser Bjork. Deixe tocar uma música até o fim. Odeio o silêncio de funerais, odeio o barulho das moscas e a tosse da tia velha.
Se alguém sentir vontade de dançar que dance. Sirva taças de vinho tinto seco.
Um funeral regado à vinho.
No meu livro da morte, não escreva teu nome.
Me escreva poemas.
Se alguém sentir vontade de chorar, que chore manso.
Reunam- se todos vocês amigos e contem histórias engraçadas sobre mim.
O meu testamento será pouco, alguns livros, uns poemas, umas canções.
Deixo para poucos também
Os que me conhecem exato.Na minha mais estranha doçura.
No dia do fim estará chovendo, não deixe que ninguém use guarda chuva. Acho lindo em funerais todos estarem vestindo capas de chuva.
Não deixe que eu vire rei, santo, ou jovem demais para morrer.
Paras os que não me conhecerem me descreva como fui.
Sem aumentar ou exaltar minha dignidade.
Diga que não fui um bom menino.
Mas passei longe de ser do mal.
Diga que vivia assim oscilando ali bem na beira do abismo.
Que as vezes dava medo de ver, mas que era bonito... Ah! isso era.
Receberá telefonemas de amigos distantes. Diga que está tudo bem.
No dia do meu funeral, haverá uma calmaria, um trânsito leve, uma garoa fina.
As pessoas sentirão uma paz, um silêncio gostoso.
E assim meio triste e até melancólico,você dirá baixinho quase sussurrado no jardim bonito que terá preparado:"Um dia assim, nem combina com a cidade caos."
Escreva meu epitáfio, uma frase solta quase esquecida.
Depois acenda um cigarro, dê uma tragada funda e fique um tempo mais comigo mesmo que a porta já tenha se fechado. E todos terem ido.
Fique comigo.
Tire seus sapatos sinta a chuva no teu peito e assim com os pés na terra molhada saia devagar, se der levante a cabeça e sorria.
E deixe que a chuva leve tudo ainda que restou
Tem uma cena que não sai da minha cabeça. ela vestida de branco dança assim dolorida com uma taça de vinho na mão. Olha a cidade amanhecendo quinze andares abaixo. Ela sorri de olhos fechados. Ela sorri doendo. Uma gota de vinho vermelho nítido cai sobre o vestido branco. Abre os olhos e pensa "esse é so o começo do fim, baby".
quinta-feira, janeiro 31, 2008
terça-feira, janeiro 29, 2008
A infância do Joãozinho.
O problema é ter uma vida de "Rock Star".
Não, o problema é ter uma vida de "Rock Star" e não ser um.
...
Os professores diziam, os amiguinhos diziam. Todos ao redor diziam: "Você tem talento".
Ele gostava de escrever, gostava de passar as noites preso no quarto, debruçado sobre seu fichário quase feminino. Escrevendo sobre tudo que achava que entendia.
Ele ainda menino, nem tão inocente e longe da amargura da vida, achava que tinha sofrido demais e escrevia.
"o poeta é um fingidor" repetia mil vezes pra si mesmo enquanto dissertava sobre dores que ele ainda nem sentia.
Achava mesmo que aprendera a fingir cedo demais, criar pra si uma outra vida quase como num conto infantil, um mundo paralelo cheio de personagens quase sempre bem mais interessantes que aqueles que fazia parte da vida fora do quarto.
E no dia seguinte, no colégio, as meninas eufóricas pelo texto novo escrito pela madrugada. "Lindo!" "Posso copiar?" "Quero mandar para o juninho"
E ele sonhava, desejava e acreditava naquilo tudo. Em tudo que o papel lhe dizia.
E Lia, lia tanto que já naquela época perdia noites de sono só para terminar o livro logo.
Seguia assim o menino lá do interior, promissor. Era sem dúvida, dizia a professora de portugês da sexta série, um jovem escritor...
Mas no meio do caminho uma curva, o vento que mudou de rumo, uma pedra que bateu na janela, um soluço tardio, um pé torcido.
Um grito entalado na garganta.
Ele virou bancario
Não, o problema é ter uma vida de "Rock Star" e não ser um.
...
Os professores diziam, os amiguinhos diziam. Todos ao redor diziam: "Você tem talento".
Ele gostava de escrever, gostava de passar as noites preso no quarto, debruçado sobre seu fichário quase feminino. Escrevendo sobre tudo que achava que entendia.
Ele ainda menino, nem tão inocente e longe da amargura da vida, achava que tinha sofrido demais e escrevia.
"o poeta é um fingidor" repetia mil vezes pra si mesmo enquanto dissertava sobre dores que ele ainda nem sentia.
Achava mesmo que aprendera a fingir cedo demais, criar pra si uma outra vida quase como num conto infantil, um mundo paralelo cheio de personagens quase sempre bem mais interessantes que aqueles que fazia parte da vida fora do quarto.
E no dia seguinte, no colégio, as meninas eufóricas pelo texto novo escrito pela madrugada. "Lindo!" "Posso copiar?" "Quero mandar para o juninho"
E ele sonhava, desejava e acreditava naquilo tudo. Em tudo que o papel lhe dizia.
E Lia, lia tanto que já naquela época perdia noites de sono só para terminar o livro logo.
Seguia assim o menino lá do interior, promissor. Era sem dúvida, dizia a professora de portugês da sexta série, um jovem escritor...
Mas no meio do caminho uma curva, o vento que mudou de rumo, uma pedra que bateu na janela, um soluço tardio, um pé torcido.
Um grito entalado na garganta.
Ele virou bancario
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Depois do Vinho
Tenho vontade de ter asas
Sair voando em silêncio pela janela de casa, olhando a cidade de cima.
Vontade de ser oceano e sair inundando tudo.
Não posso.
Então fecho os olhos no escuro e coloco um cd de Nara Leão. Me deito no chão
E encho minha cabeça de cores.
Imagino que sou leve e que caio como gota na testa das pessoas
Sou engolido devagar com a ponta da lingua.
Só para entrar bem fundo e brincar de ser Deus, duende ou fada.
Remexo em tudo, tiro tudo do lugar, peça por peça.
Para me reencontrar em cada mão, sombrancelhas, gestos imprecisos.
Roubar pra mim minha cada história.
Só para depois, dissimulado, cuspir tudo em um papel...
Sair voando em silêncio pela janela de casa, olhando a cidade de cima.
Vontade de ser oceano e sair inundando tudo.
Não posso.
Então fecho os olhos no escuro e coloco um cd de Nara Leão. Me deito no chão
E encho minha cabeça de cores.
Imagino que sou leve e que caio como gota na testa das pessoas
Sou engolido devagar com a ponta da lingua.
Só para entrar bem fundo e brincar de ser Deus, duende ou fada.
Remexo em tudo, tiro tudo do lugar, peça por peça.
Para me reencontrar em cada mão, sombrancelhas, gestos imprecisos.
Roubar pra mim minha cada história.
Só para depois, dissimulado, cuspir tudo em um papel...
Fábula (só pq eu gosto muito deste)
Mora um monstro dentro da minha pia.
Ouço barulhos que vem de lá
Acredito que ele esteja chorando, de solidão ou angústia.
As vezes eu choro também e sei que ele pode me ouvir
Os outros moradores da casa desconhecem a existência dele.
O que o torna meu. Único e exclusivo monstro.
Sei que ele deve ser feio, até mesmo gosmento
Durante a madrugada ouço seus passos pela casa adormecida
Ele vem até meu quarto, quer me dizer coisas belas e sujas.
Fico bem quieto, fingindo dormir.
Tenho vontade que ele me toque
Embora o cheiro me fere as narinas.
Tenho medo de abrir os olhosE encara-lo.
Ele é triste e sozinho.
Belo por dentro
Aprisionado em tanta feiúra.
Eu o amo em segredo
Ele me ama em segredo.
Apesar de moramos juntos e desejarmos as mesmas coisas, de sonharmos os mesmos sonhos
De fazermos parte da mesma pia, não nos temos.
Preconceito meu.
Preconceito do monstro.
Ouço barulhos que vem de lá
Acredito que ele esteja chorando, de solidão ou angústia.
As vezes eu choro também e sei que ele pode me ouvir
Os outros moradores da casa desconhecem a existência dele.
O que o torna meu. Único e exclusivo monstro.
Sei que ele deve ser feio, até mesmo gosmento
Durante a madrugada ouço seus passos pela casa adormecida
Ele vem até meu quarto, quer me dizer coisas belas e sujas.
Fico bem quieto, fingindo dormir.
Tenho vontade que ele me toque
Embora o cheiro me fere as narinas.
Tenho medo de abrir os olhosE encara-lo.
Ele é triste e sozinho.
Belo por dentro
Aprisionado em tanta feiúra.
Eu o amo em segredo
Ele me ama em segredo.
Apesar de moramos juntos e desejarmos as mesmas coisas, de sonharmos os mesmos sonhos
De fazermos parte da mesma pia, não nos temos.
Preconceito meu.
Preconceito do monstro.
terça-feira, janeiro 08, 2008
Uma histórinha. Ou mais sobre as formas do amor
São dez horas da manhã. O sol escaldante queima a cidade caótica.
Tanto calor nem combina com a cor cinza desta cidade.
Enquanto saio do banheiro tentando achar uma roupa decente para vestir lembro-me de ter lido em algum lugar que este ano será o ano de marte.
Sem saber o que isso quer dizer tento acordar sem querer, viver sem vontade.
O quarto está parecendo um campo de batalha e há roupas e jornais antigos jogados pelo chão. Os pés dela ainda continuam na mesma posição. Ela ainda continua na mesma posição, de bruços, a única coisa diferente dos outros dia é este vermelho nítido nos lençóis...
A casa toda parece ter sobrevivido a um furacão. Bitucas de cigarro, latas de cerveja vazias, sobras de uma noite festiva que parece tão distante agora. Em que século mesmo?
O sol entra cortando a escuridão da pequena cozinha, louça de muitos dias na pia.
E eu sem vontade tentando achar uma roupa... um jeans qualquer, um all star velho...
Vontade de ligar e dizer que hoje não vou, nem hoje nem nunca mais.
A cidade acontece lá embaixo. Trânsito, gente feliz, gente correndo, telefones que tocam, amigos que se encontram para um café tardio.
E eu só penso em parar.
Encontro a roupa qualquer, não penteio os cabelos e saio. No elevador penso que era bom aguar as plantas da sala. Quem se importa?.
A rua cinza, fedida... tanta gente... tanta gente morta meu Deus! Me sinto em um filme de zumbis. O sol me dá preguiça. Ponto de ônibus. Gente feia, cansada, mal humorada, ônibus lotado. Desço já bem atrasado no ponto final.
Duas quadras de distância da redação finjo minha melhor cara. Respiro fundo e vou.
Entro com o melhor sorriso, digo bom dia a todos com um entusiasmo irritante. Pego um copo plástico de café preto, forte, sem açúcar.
Sento-me na frente do computador de última geração, presente do chefe. Alguém faz uma piadinha e a sala de "jovens e promissores talentos" ri.
E começo então a escrever a notícia do dia.
Mais um crime passional na noite fervilhante da cidade...
Uma história banal sobre o amor.
Tanto calor nem combina com a cor cinza desta cidade.
Enquanto saio do banheiro tentando achar uma roupa decente para vestir lembro-me de ter lido em algum lugar que este ano será o ano de marte.
Sem saber o que isso quer dizer tento acordar sem querer, viver sem vontade.
O quarto está parecendo um campo de batalha e há roupas e jornais antigos jogados pelo chão. Os pés dela ainda continuam na mesma posição. Ela ainda continua na mesma posição, de bruços, a única coisa diferente dos outros dia é este vermelho nítido nos lençóis...
A casa toda parece ter sobrevivido a um furacão. Bitucas de cigarro, latas de cerveja vazias, sobras de uma noite festiva que parece tão distante agora. Em que século mesmo?
O sol entra cortando a escuridão da pequena cozinha, louça de muitos dias na pia.
E eu sem vontade tentando achar uma roupa... um jeans qualquer, um all star velho...
Vontade de ligar e dizer que hoje não vou, nem hoje nem nunca mais.
A cidade acontece lá embaixo. Trânsito, gente feliz, gente correndo, telefones que tocam, amigos que se encontram para um café tardio.
E eu só penso em parar.
Encontro a roupa qualquer, não penteio os cabelos e saio. No elevador penso que era bom aguar as plantas da sala. Quem se importa?.
A rua cinza, fedida... tanta gente... tanta gente morta meu Deus! Me sinto em um filme de zumbis. O sol me dá preguiça. Ponto de ônibus. Gente feia, cansada, mal humorada, ônibus lotado. Desço já bem atrasado no ponto final.
Duas quadras de distância da redação finjo minha melhor cara. Respiro fundo e vou.
Entro com o melhor sorriso, digo bom dia a todos com um entusiasmo irritante. Pego um copo plástico de café preto, forte, sem açúcar.
Sento-me na frente do computador de última geração, presente do chefe. Alguém faz uma piadinha e a sala de "jovens e promissores talentos" ri.
E começo então a escrever a notícia do dia.
Mais um crime passional na noite fervilhante da cidade...
Uma história banal sobre o amor.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Fazendo a linha desapegado. Sem ser
Eu nunca fui de fazer listas de ano novo, nem planejamento, nem nada.
No máximo eu fico sonhando com coisas fantasiosas do tipo "este ano eu escrevo um livro" ou "este ano eu estarei em um trem em Berlim e encontrarei o tal rapaz".
Quando eu tinha vinte anos eu achava que aos trinta eu já teria casa própria, casado etc, etc, etc...
Agora aos 29 anos nem sei... nem sei para onde vou e como vou, onde estarei daqui a três meses, que cidade, que país, com quem, fazendo o que...
E prefiro assim. Cada ano que passa eu vou tendo a certeza que serei sempre assim, meio errante no mundo. E isso não me impede de escrever o tal livro. De ter uma casa para voltar as vezes e de um amante para me aporrinhar a paz e dilacerar o coração.
Mas quero assim errante.
Sem listas
Sem "segredo"
Mas isso também é mentira.
Quero manter em mim meu lado Dorothy e bater três vezes o calcanhar para que meu desejo se realize.
Quero me apegar na receita da dieta fácil e a tudo que me parecer milagroso. Quero continuar na mesma cidade e mantendo os mesmo amigos.
E isso, como você já deve saber, é mentira
No máximo eu fico sonhando com coisas fantasiosas do tipo "este ano eu escrevo um livro" ou "este ano eu estarei em um trem em Berlim e encontrarei o tal rapaz".
Quando eu tinha vinte anos eu achava que aos trinta eu já teria casa própria, casado etc, etc, etc...
Agora aos 29 anos nem sei... nem sei para onde vou e como vou, onde estarei daqui a três meses, que cidade, que país, com quem, fazendo o que...
E prefiro assim. Cada ano que passa eu vou tendo a certeza que serei sempre assim, meio errante no mundo. E isso não me impede de escrever o tal livro. De ter uma casa para voltar as vezes e de um amante para me aporrinhar a paz e dilacerar o coração.
Mas quero assim errante.
Sem listas
Sem "segredo"
Mas isso também é mentira.
Quero manter em mim meu lado Dorothy e bater três vezes o calcanhar para que meu desejo se realize.
Quero me apegar na receita da dieta fácil e a tudo que me parecer milagroso. Quero continuar na mesma cidade e mantendo os mesmo amigos.
E isso, como você já deve saber, é mentira
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Post fraco O ultimo do ano ( ou não)
To em recesso criativo. não sai nada aqui de dentro.
Odeio esta fase do ano e todas as lembranças amargas que ela me traz.
não consigo escrever mais nada
acho que sequei.
feliz 2008 para todos!
....
uma certa dose de amor. é possível?
Odeio esta fase do ano e todas as lembranças amargas que ela me traz.
não consigo escrever mais nada
acho que sequei.
feliz 2008 para todos!
....
uma certa dose de amor. é possível?
quarta-feira, novembro 28, 2007
Bicho Papão
Vem assim sem ser convidado
Mancha de vermelho os lençóis brancos.
E sucumbo.
Tenho a impressão de que passo a vida segurando o freio de mão.
Mas o óleo ta velho, o câmbio enferrujado e a qualquer momento o trem pode descarrilhar.
Então me corto no ponto exato. Sei como me machucar como ninguém
Sou capaz de passar horas vendo o sangue pingar sobre o piso já gasto do banheiro.
Fico insistindo nesses testes para ser o ator principal.
Bobagem! Sou apenas o coadjuvante, aquele que ajuda o mocinho a trama toda e nos quinze minutos finais morre nas mãos do assassino mascarado.
E essa atuação secundária nem é digna de Oscar.
Eis o meu segredo: tenho medo da pessoa que sou então invento uma personagem a cada noite.
E a noite vai se tornando cada vez mais longa e eu vou ficando cada vez mais distante.
Hoje especialmente cansei de minha máscara. Olho meus dedos amarelados por causa do cigarro, minhas olheiras por causa das noites mal dormidas.
Tenho medo da solidão que entra toda noite na minha sala de estar vestida de branco com olhos de angústia.
A noiva.
Penso estar enlouquecendo e os dias se repetem, se repetem se repetem...
É um ciclo.
E não consigo parar de pensar em uma noite de minha infância:
Deitado na cama no escuro eu ouvi ele se aproximar do quarto, tinhas mãos e dedos longos e usava um chapéu que escondia o rosto. Só dava para ver a sombra de um nariz grande e fino.
Lembro de ter me virado para a parede sem sentir medo ou qualquer outra coisa e aquelas mão se aproximando e lentamente tirando do meu corpo minha pequena camiseta.
Depois eu adormeci e quando acordei de manhã minha camiseta (a que eu nunca tirava para dormir porque se eu dormisse sem camiseta o anjo da guarda não me visitaria durante a noite. Foi o que dissera minha mãe) estava embolada no meio do quarto. Um montinho amarrotado tamanho p.
Agora eu sei que.
Ele nunca mais foi embora.
Mancha de vermelho os lençóis brancos.
E sucumbo.
Tenho a impressão de que passo a vida segurando o freio de mão.
Mas o óleo ta velho, o câmbio enferrujado e a qualquer momento o trem pode descarrilhar.
Então me corto no ponto exato. Sei como me machucar como ninguém
Sou capaz de passar horas vendo o sangue pingar sobre o piso já gasto do banheiro.
Fico insistindo nesses testes para ser o ator principal.
Bobagem! Sou apenas o coadjuvante, aquele que ajuda o mocinho a trama toda e nos quinze minutos finais morre nas mãos do assassino mascarado.
E essa atuação secundária nem é digna de Oscar.
Eis o meu segredo: tenho medo da pessoa que sou então invento uma personagem a cada noite.
E a noite vai se tornando cada vez mais longa e eu vou ficando cada vez mais distante.
Hoje especialmente cansei de minha máscara. Olho meus dedos amarelados por causa do cigarro, minhas olheiras por causa das noites mal dormidas.
Tenho medo da solidão que entra toda noite na minha sala de estar vestida de branco com olhos de angústia.
A noiva.
Penso estar enlouquecendo e os dias se repetem, se repetem se repetem...
É um ciclo.
E não consigo parar de pensar em uma noite de minha infância:
Deitado na cama no escuro eu ouvi ele se aproximar do quarto, tinhas mãos e dedos longos e usava um chapéu que escondia o rosto. Só dava para ver a sombra de um nariz grande e fino.
Lembro de ter me virado para a parede sem sentir medo ou qualquer outra coisa e aquelas mão se aproximando e lentamente tirando do meu corpo minha pequena camiseta.
Depois eu adormeci e quando acordei de manhã minha camiseta (a que eu nunca tirava para dormir porque se eu dormisse sem camiseta o anjo da guarda não me visitaria durante a noite. Foi o que dissera minha mãe) estava embolada no meio do quarto. Um montinho amarrotado tamanho p.
Agora eu sei que.
Ele nunca mais foi embora.
terça-feira, novembro 27, 2007
Monólogo (Parte 1)
Cada minuto que passa sou tomada por um desespero absoluto.
Tanta coisa acontecendo dentro de mim
Tanta confusão
Tanta coisa que eu queria dizer.
Olho ao meu redor e um mundo de micro-coisas acontecem.
Um telefone toca, alguém acena, alguém fala ao telefone, uma carta é digitada, um e-mail enviado, um beijo, uma morte, um nascimento, uma caneta cai, uma folha é rasgada, um tapa na face, um gole no café quente, um suspiro, um choro, uma risada, um olhar perdido, uma freada, um sinal fechado, aberto, um corpo que cai.
Pressa, pressa, pressa.
Tudo acontece ao meu redor e eu inerte.
Suspensa. Intocável.
Pareçe que não estou aqui. Que não faço parte de nada disso.
As vezes sou apenas o que dizem por aí.
O banal que me preenche a mente, o corpo que seca
E eu queria escrever.
Queria que saísse assim de dentro de mim este nó
Esta angústia
Uma inquietação sem fim
Uma coisa que corrói por dentro.
Queria contar sobre isso
Essa inquietude...sabe?
Não, não sabe
O que te aflige? O que te aflige?
Me conta, o que te aflige?
Sinto essa coisa esse nó na garganta
Um feto?
Seria um feto que não nasce? um feto morto?
Será que você não vê?
Ou será que não é nada?
Mas porque então eu perco o sono?
Meu corpo arde
Minha cabeça dói?
É preciso sentar.
É preciso calar
Fazer silêncio.
Tá, respira...agora....
Preciso forçar o vômito
Acabar com a ânsia.
Enfiar bem fundo o dedo na garganta e puxar
Puxar tudo de uma só vez.
Este monstro. Essa força.
Me escuta. Me escuta não vá ainda.
Olha para mim
Sabe, teve um tempo que eu acreditei que eu era diferente, que algo especial estava guardado para mim.
Eu era uma menina eu acreditei que eu conseguiria
Minha história ia ser linda....
Tão linda.
Não foi, não é.....
Escuta, me escuta!
Tanta coisa acontecendo dentro de mim
Tanta confusão
Tanta coisa que eu queria dizer.
Olho ao meu redor e um mundo de micro-coisas acontecem.
Um telefone toca, alguém acena, alguém fala ao telefone, uma carta é digitada, um e-mail enviado, um beijo, uma morte, um nascimento, uma caneta cai, uma folha é rasgada, um tapa na face, um gole no café quente, um suspiro, um choro, uma risada, um olhar perdido, uma freada, um sinal fechado, aberto, um corpo que cai.
Pressa, pressa, pressa.
Tudo acontece ao meu redor e eu inerte.
Suspensa. Intocável.
Pareçe que não estou aqui. Que não faço parte de nada disso.
As vezes sou apenas o que dizem por aí.
O banal que me preenche a mente, o corpo que seca
E eu queria escrever.
Queria que saísse assim de dentro de mim este nó
Esta angústia
Uma inquietação sem fim
Uma coisa que corrói por dentro.
Queria contar sobre isso
Essa inquietude...sabe?
Não, não sabe
O que te aflige? O que te aflige?
Me conta, o que te aflige?
Sinto essa coisa esse nó na garganta
Um feto?
Seria um feto que não nasce? um feto morto?
Será que você não vê?
Ou será que não é nada?
Mas porque então eu perco o sono?
Meu corpo arde
Minha cabeça dói?
É preciso sentar.
É preciso calar
Fazer silêncio.
Tá, respira...agora....
Preciso forçar o vômito
Acabar com a ânsia.
Enfiar bem fundo o dedo na garganta e puxar
Puxar tudo de uma só vez.
Este monstro. Essa força.
Me escuta. Me escuta não vá ainda.
Olha para mim
Sabe, teve um tempo que eu acreditei que eu era diferente, que algo especial estava guardado para mim.
Eu era uma menina eu acreditei que eu conseguiria
Minha história ia ser linda....
Tão linda.
Não foi, não é.....
Escuta, me escuta!
sexta-feira, novembro 23, 2007
Meu mundo paralelo
Ando por aí tentando descobrir um sentindo pra tudo.
Ando por aí com uma mochila nas costas ouvindo meu mp3.
Por aí eu vou observando cada movimento, cada passante, sendo levado pelo caminho desconhecido do som que ouço.
Vou assim desajeitado querendo uma vida diferente, um atalho.
Desajeitado invento outro mundo e neste mundo estou sentado em uma cadeira confortável na varanda de casa.
Minha casa pequena com uma horta nos fundos, um jardim cuidado e uma bicicleta.
Nesse mundo eu fumo bastante e domino as palavras. Consigo descrever as sensações exatas das coisas. Dos cheiros, toques, sons.
O tempo passa pela janela, calmo, e eu não tenho pressa.
Neste lugar não há abismos e quando sinto falta de amigos uso o telefone vermelho que fica apoiado numa mesinha de canto.
Ali não tenho medo ou ansiedade.
Nem crises nem divã.
Não há buzinas nem fumaças. Não há obrigações. Ou deveres.
Há um amor para ser cuidado, um afago para ser feito um silêncio necessário.
Há uma árvore que cresce com preguiça, que necessita atenção.
Um vinho tinto seco na temperatura certa.
E quando o telefone não basta há a presença dos amigos queridos.
Não penso no futuro, não penso em nada, tudo que me é precioso está ali naquela caixa, naquele terreno que cultivei com amor.
É minha Macondo, minha Pasárgada.
É para lá que vou em dias como hoje (que se repetem) em que essa lama cobre tudo.
E a luz se apaga.
Ando por aí com uma mochila nas costas ouvindo meu mp3.
Por aí eu vou observando cada movimento, cada passante, sendo levado pelo caminho desconhecido do som que ouço.
Vou assim desajeitado querendo uma vida diferente, um atalho.
Desajeitado invento outro mundo e neste mundo estou sentado em uma cadeira confortável na varanda de casa.
Minha casa pequena com uma horta nos fundos, um jardim cuidado e uma bicicleta.
Nesse mundo eu fumo bastante e domino as palavras. Consigo descrever as sensações exatas das coisas. Dos cheiros, toques, sons.
O tempo passa pela janela, calmo, e eu não tenho pressa.
Neste lugar não há abismos e quando sinto falta de amigos uso o telefone vermelho que fica apoiado numa mesinha de canto.
Ali não tenho medo ou ansiedade.
Nem crises nem divã.
Não há buzinas nem fumaças. Não há obrigações. Ou deveres.
Há um amor para ser cuidado, um afago para ser feito um silêncio necessário.
Há uma árvore que cresce com preguiça, que necessita atenção.
Um vinho tinto seco na temperatura certa.
E quando o telefone não basta há a presença dos amigos queridos.
Não penso no futuro, não penso em nada, tudo que me é precioso está ali naquela caixa, naquele terreno que cultivei com amor.
É minha Macondo, minha Pasárgada.
É para lá que vou em dias como hoje (que se repetem) em que essa lama cobre tudo.
E a luz se apaga.
segunda-feira, novembro 19, 2007
Sobre o amor, margaridas e abismo
Fiquei pensando em escrever sobre o amor.
Escrever como eu te amo.
Fiquei pensando em contar como passo os dias contando os minutos pra te ver.
Como é dolorido estar longe de você.
Como é um drama morar tão distante. Como passo as semanas fazendo planos para nosso encontro mensal.
Pensei em contar da vontade que tenho de estar com você toda vez que eu descubro algo de novo na rua em que eu passo todos os dias.
Que tenho vontade de te ligar de hora em hora.
Que minha cama é grande demais sem tuas pernas se enroscando nas minhas.
Que sem você as noites são longas e solitárias.
Da minha vontade de largar tudo. De deixar carreira, amigos, casa e me mudar pra tua cidade só para estar mais perto.
Pensei em escrever sobre o amor que sinto.
Mas eu não consigo.
Não consigo dizer aqui o jeito exato do meu amor. Não consigo dizer que é mágico.
E tenho medo de ser piegas.
Queria ter o dom para dizer “te amo” de um jeito diferente.
Então passo os dias tentando encontrar a palavra exata.
....
Eu ainda caio no abismo sem fim
A diferença é que agora carrego comigo uma margarida e seguro na tua mão.
E meus olhos estão abertos e fixados nos teus.
E antes do impacto que não chega nunca teu olhos me dizem para não temer.
E você sorri e percebo então aquilo que eu sempre soube.
Tudo está bem.
....
Te amo porque você não tentou me tirar do abismo
Você fez do meu abismo um lugar melhor
Você me trouxe margaridas...
Escrever como eu te amo.
Fiquei pensando em contar como passo os dias contando os minutos pra te ver.
Como é dolorido estar longe de você.
Como é um drama morar tão distante. Como passo as semanas fazendo planos para nosso encontro mensal.
Pensei em contar da vontade que tenho de estar com você toda vez que eu descubro algo de novo na rua em que eu passo todos os dias.
Que tenho vontade de te ligar de hora em hora.
Que minha cama é grande demais sem tuas pernas se enroscando nas minhas.
Que sem você as noites são longas e solitárias.
Da minha vontade de largar tudo. De deixar carreira, amigos, casa e me mudar pra tua cidade só para estar mais perto.
Pensei em escrever sobre o amor que sinto.
Mas eu não consigo.
Não consigo dizer aqui o jeito exato do meu amor. Não consigo dizer que é mágico.
E tenho medo de ser piegas.
Queria ter o dom para dizer “te amo” de um jeito diferente.
Então passo os dias tentando encontrar a palavra exata.
....
Eu ainda caio no abismo sem fim
A diferença é que agora carrego comigo uma margarida e seguro na tua mão.
E meus olhos estão abertos e fixados nos teus.
E antes do impacto que não chega nunca teu olhos me dizem para não temer.
E você sorri e percebo então aquilo que eu sempre soube.
Tudo está bem.
....
Te amo porque você não tentou me tirar do abismo
Você fez do meu abismo um lugar melhor
Você me trouxe margaridas...
quarta-feira, outubro 24, 2007
na madrugada
Msn aberto
música
diálogos
taça pela metade
safra 2006
e a vontade eterna de ser outro
ESTAR ALÉM DO PONTO.
música
diálogos
taça pela metade
safra 2006
e a vontade eterna de ser outro
ESTAR ALÉM DO PONTO.
quinta-feira, outubro 18, 2007
O que eu não sei
Eu Deveria saber já.
Mas eu tenho um dom para o abismo.
Eu me forço a andar ali na beira.
Porque eu sempre acho que assim, na beira do abismo, eu tenho a visão mais bonita...
Vivo ali me equilibrando para não cair.
Mas eu deveria saber que enquanto to ali na beirada coisas belas acontecem a minha volta.
E eu não vejo.
Não toco.
Eu sempre to olhando para meu umbigo ou para debaixo dos meus pés
Eu sempre to cavando um terreno desconhecido em busca de algo que nem sei o que é.
Às vezes quando acho que fui longe demais eu volto correndo.
Encolho-me e fecho todas as portas.
Os dias passam e eu abro uma janela... e vou voltando devagarzinho para o mesmo lugar de antes.
Como um menino maravilhado com o brinquedo novo.
Eu deveria saber aquilo que todo mundo sabe:
É preciso entender e amar a vida. Todas as suas dores e perdas, todos os danos, toda noite bem ou mal dormida, toda lágrima e riso, cada conquista, todo beijo e abraço, todo tapa e palavras duras.
É preciso estar atento para só depois, veja bem, só depois descartá-la
Eu deveria saber...
Mas eu tenho um dom para o abismo.
Eu me forço a andar ali na beira.
Porque eu sempre acho que assim, na beira do abismo, eu tenho a visão mais bonita...
Vivo ali me equilibrando para não cair.
Mas eu deveria saber que enquanto to ali na beirada coisas belas acontecem a minha volta.
E eu não vejo.
Não toco.
Eu sempre to olhando para meu umbigo ou para debaixo dos meus pés
Eu sempre to cavando um terreno desconhecido em busca de algo que nem sei o que é.
Às vezes quando acho que fui longe demais eu volto correndo.
Encolho-me e fecho todas as portas.
Os dias passam e eu abro uma janela... e vou voltando devagarzinho para o mesmo lugar de antes.
Como um menino maravilhado com o brinquedo novo.
Eu deveria saber aquilo que todo mundo sabe:
É preciso entender e amar a vida. Todas as suas dores e perdas, todos os danos, toda noite bem ou mal dormida, toda lágrima e riso, cada conquista, todo beijo e abraço, todo tapa e palavras duras.
É preciso estar atento para só depois, veja bem, só depois descartá-la
Eu deveria saber...
quarta-feira, outubro 10, 2007
A casa
A casa está vazia.
Apenas silêncio e uma poeira fina.
O sol entra acanhado iluminando os móveis velhos.
A cortina da sala está suja.
A cama está do mesmo jeito e roupas e sapatos estão jogados no chão.
Não há sinal de vida.
Vazia.
Um vento tímido balança o pano branco que cobre o velho piano.
Pode ser que ele volte. Deixou a porta aberta, acho que é um sinal.
Pode ser que ele venha com móveis novos e troque tudo.
E pinte as paredes e toque o piano.
A melodia mais linda.
Talvez não volte nunca e esta casa morra de vez.
Ele saiu apressado durante uma noite de tempestade sem capa de chuva ou botas.
Parecia estar triste, não sei.
E quando saiu da casa ele caminhou em direção ao rio...
Há quem diga que se você se debruçar na margem e olhar bem lá no fundo você o verá.
E parece que é a cena mais bonita de se ver...
Apenas silêncio e uma poeira fina.
O sol entra acanhado iluminando os móveis velhos.
A cortina da sala está suja.
A cama está do mesmo jeito e roupas e sapatos estão jogados no chão.
Não há sinal de vida.
Vazia.
Um vento tímido balança o pano branco que cobre o velho piano.
Pode ser que ele volte. Deixou a porta aberta, acho que é um sinal.
Pode ser que ele venha com móveis novos e troque tudo.
E pinte as paredes e toque o piano.
A melodia mais linda.
Talvez não volte nunca e esta casa morra de vez.
Ele saiu apressado durante uma noite de tempestade sem capa de chuva ou botas.
Parecia estar triste, não sei.
E quando saiu da casa ele caminhou em direção ao rio...
Há quem diga que se você se debruçar na margem e olhar bem lá no fundo você o verá.
E parece que é a cena mais bonita de se ver...
quarta-feira, setembro 26, 2007
Oi. Bom dia.
To indo viajar.
Daqui a pouco estarei em Porto Alegre.
Cidade do meu escritor preferido: Caio F.
E visitarei a casa em que ele morou. Visitarei o Túmulo onde ele foi enterrado (por mais móbido que isso pareça) Deixarei lá uma margarida. Amarelo branco, desespero agrádavel.
...
Talvez eu volte um pouco mudado. Talvez.
O coração se acalme.
Tocarei as mãos que as minhas tanto desejam.
E beijarei a boca que deixa a minha desassossegada.
Talvez o amor aconteça...
...
Quando eu estiver na beira do rio Guaiba tomando uma taça de vinho e assitindo ao por do sol vou pensar que.
Daqui a pouco estarei em Porto Alegre.
Cidade do meu escritor preferido: Caio F.
E visitarei a casa em que ele morou. Visitarei o Túmulo onde ele foi enterrado (por mais móbido que isso pareça) Deixarei lá uma margarida. Amarelo branco, desespero agrádavel.
...
Talvez eu volte um pouco mudado. Talvez.
O coração se acalme.
Tocarei as mãos que as minhas tanto desejam.
E beijarei a boca que deixa a minha desassossegada.
Talvez o amor aconteça...
...
Quando eu estiver na beira do rio Guaiba tomando uma taça de vinho e assitindo ao por do sol vou pensar que.
terça-feira, setembro 18, 2007
Fragmentos
Uma historinha:
Ela só de calcinha se olhando no espelho. No vigésimo andar tomando uma taça de vinho e se sentindo feia por causa da celulite.
E embora estivesse frio. A janela estivesse aberta, embora já estivesse bêbada ela queria mais vinho.
Pensou que seria bom cair assim de repente do vigésimo andar, as celulites estourando lá embaixo. Nunca mais dieta. Nunca mais frustrações.
Embora fosse bem sucedida, fosse casada, e rodeada de amigos estava se sentindo triste.
Uma historinha assim: embora a vida que a envolve. Ela como uma bailarina desastrada assim meio que debruçada na janela , meio sem querer, despencava feito uma boneca de pano do vigésimo andar.
Embora o frio cortante.
Ela só de calcinha se olhando no espelho. No vigésimo andar tomando uma taça de vinho e se sentindo feia por causa da celulite.
E embora estivesse frio. A janela estivesse aberta, embora já estivesse bêbada ela queria mais vinho.
Pensou que seria bom cair assim de repente do vigésimo andar, as celulites estourando lá embaixo. Nunca mais dieta. Nunca mais frustrações.
Embora fosse bem sucedida, fosse casada, e rodeada de amigos estava se sentindo triste.
Uma historinha assim: embora a vida que a envolve. Ela como uma bailarina desastrada assim meio que debruçada na janela , meio sem querer, despencava feito uma boneca de pano do vigésimo andar.
Embora o frio cortante.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Poço
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobri quê.
Caio F. O Ovo Apunhalado.
...
Porque eu Entendo de poços!
bom dia
Caio F. O Ovo Apunhalado.
...
Porque eu Entendo de poços!
bom dia
terça-feira, agosto 28, 2007
Augusta, 387.
To aqui sentada. Cansada.
Sozinha, abandonada.
Olho o esmalte vivo das unhas curtas. Vermelho sangue.
Vermelho noite, vermelho claro.
Bebo o último gole de vodca barata, pouco gelo, desce queimando, aliviando o amargo que ainda resta.
Na boca do estômago, no canto da boca
Do beijo final.
Assim á meia luz. Meias pretas, salto alto.
Arrumo o coque no alto da cabeça. Ensaio um sorriso. Anos depois...
Parada. Contemplo no espelho os meus seios cansados. Esses olhos que desconheço.
O tempo que chega sem pedir licença. Já nem lembro mais quem sou. De onde vim para onde vou.
A noite ainda é uma criança e é preciso rebolar um pouco mais, beber um pouco mais, forçar mais este sorriso... Isso assim...
Amarga, triste, drogada... quem se importa?
Aqui parada olhando o esmalte vermelho.
Vermelho sangue.
Ouço carros apressados na avenida lá fora, sinais fechados. Cruzamentos fatais.
Olhando assim as unhas, querendo mais vodca barata, minto um sorriso.
É preciso parar de desejar a morte. Desejar a vida. Não dá.
A noite ainda é uma criança e o show tem que continuar...
Sozinha, abandonada.
Olho o esmalte vivo das unhas curtas. Vermelho sangue.
Vermelho noite, vermelho claro.
Bebo o último gole de vodca barata, pouco gelo, desce queimando, aliviando o amargo que ainda resta.
Na boca do estômago, no canto da boca
Do beijo final.
Assim á meia luz. Meias pretas, salto alto.
Arrumo o coque no alto da cabeça. Ensaio um sorriso. Anos depois...
Parada. Contemplo no espelho os meus seios cansados. Esses olhos que desconheço.
O tempo que chega sem pedir licença. Já nem lembro mais quem sou. De onde vim para onde vou.
A noite ainda é uma criança e é preciso rebolar um pouco mais, beber um pouco mais, forçar mais este sorriso... Isso assim...
Amarga, triste, drogada... quem se importa?
Aqui parada olhando o esmalte vermelho.
Vermelho sangue.
Ouço carros apressados na avenida lá fora, sinais fechados. Cruzamentos fatais.
Olhando assim as unhas, querendo mais vodca barata, minto um sorriso.
É preciso parar de desejar a morte. Desejar a vida. Não dá.
A noite ainda é uma criança e o show tem que continuar...
Diálogo.
-Alô?- Ele atende do outro lado, são três e quinze da manhã, voz sonolenta.
– Oi, sou eu.- Acendo um cigarro, janela aberta um frio cortante. Me levanto e caminho até a sacada. Vinte andares abaixo, a cidade que não para nunca.
- Oi, que foi?
- Acabei de tomar uma garrafa de vinho
- O que?
- Na tua hora final. Que música estará tocando na curva fatal? Onde você vai estar? Olhando para um teto branco em um quarto cheirando a iodo? Ou numa festa? Qual será teu último desejo? Tomei uma garrafa de vinho. Isso me fez pensar...
- Isso o quê? Olha são três e quinze da madrugada eu estou com sono...
- Isso... O vinho, a cidade lá embaixo. Eu estava pensando onde você vai estar na tua hora final...
– O Que você está falando? Eu estou cansado, preciso dormir, vá dormir também.
- Na hora da morte será que saberemos? O que diremos? Quanto tempo teremos? Eu sei hoje é sábado eu estou meio bêbado, melancólico... Desde que você se foi eu...
- Escuta... Eu preciso dormir, não quero falar disso agora! Eu não estou sozinho... Vá dormir... É tarde!
- Eu só queria dizer que. Eu...
- Eu vou me deitar! Boa noite.
Desliga o telefone. O frio parece aumentar.Tanta gente triste, meu Deus!
Porque é sábado eu estou só.
Você me deixou e eu estou bêbado.
Porque sinto–me vazio e não sei o que fazer sem você, minhas mãos não encontra um lugar, meu corpo não se aquece.
Espelhos partidos.
Sinto o piso frio debaixo dos meus pés descalços.
Vontade súbita de ligar de novo, de pedir para você voltar, me escuta...
Vamos tomar um café agora.
Uma taça de vinho... Venha me cobrir, escuta...
Eu ainda não disse tanta coisa...Nós ainda não caminhamos pela paulista, não tomamos chuva junto, escuta!
Três e pouco da manhã...
Alguns acreditam ser a hora do demônio.
A hora da morte.
A minha hora final.
– Oi, sou eu.- Acendo um cigarro, janela aberta um frio cortante. Me levanto e caminho até a sacada. Vinte andares abaixo, a cidade que não para nunca.
- Oi, que foi?
- Acabei de tomar uma garrafa de vinho
- O que?
- Na tua hora final. Que música estará tocando na curva fatal? Onde você vai estar? Olhando para um teto branco em um quarto cheirando a iodo? Ou numa festa? Qual será teu último desejo? Tomei uma garrafa de vinho. Isso me fez pensar...
- Isso o quê? Olha são três e quinze da madrugada eu estou com sono...
- Isso... O vinho, a cidade lá embaixo. Eu estava pensando onde você vai estar na tua hora final...
– O Que você está falando? Eu estou cansado, preciso dormir, vá dormir também.
- Na hora da morte será que saberemos? O que diremos? Quanto tempo teremos? Eu sei hoje é sábado eu estou meio bêbado, melancólico... Desde que você se foi eu...
- Escuta... Eu preciso dormir, não quero falar disso agora! Eu não estou sozinho... Vá dormir... É tarde!
- Eu só queria dizer que. Eu...
- Eu vou me deitar! Boa noite.
Desliga o telefone. O frio parece aumentar.Tanta gente triste, meu Deus!
Porque é sábado eu estou só.
Você me deixou e eu estou bêbado.
Porque sinto–me vazio e não sei o que fazer sem você, minhas mãos não encontra um lugar, meu corpo não se aquece.
Espelhos partidos.
Sinto o piso frio debaixo dos meus pés descalços.
Vontade súbita de ligar de novo, de pedir para você voltar, me escuta...
Vamos tomar um café agora.
Uma taça de vinho... Venha me cobrir, escuta...
Eu ainda não disse tanta coisa...Nós ainda não caminhamos pela paulista, não tomamos chuva junto, escuta!
Três e pouco da manhã...
Alguns acreditam ser a hora do demônio.
A hora da morte.
A minha hora final.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Um sonho que tive.
Você já sentiu assim? É como se você estivesse suspenso, como se você não tivesse sido convidado.
Para a festa
Com uma velocidade incrível eu cai no abismo
Escuro, sujo e de pouca ventilação. Daqui de dentro eu não consigo respirar, meu peito dói e tenho uma vontade imensa de gritar.
Tenho vontade de rasgar o peito e com a mão direita puxar daqui de dentro essa serpente negra. Tem me sugado.
Não consigo subir. Não tenho forças para caminhar aqui dentro.
É um espaço mínimo, escuro, e não consigo ver saída.
Ouço daqui debaixo vozes lá em cima, passos e risadas. Ninguém me vê.
As pessoas, elas atravessam meu abismo.
Imponentes.
Daqui eu vejo tudo distorcido e só espero minha hora final.
Tenho vontade de voltar a ser feto.
Eu tenho medo de morrer, de perder o controle, de não amar nunca, de perder o emprego, da bomba explodir, do mundo ruir.
Quando estou aqui dentro não tenho forças e nem vontade.
Para dizer ou escrever qualquer coisa.
Fecho os olhos e tento esquecer...
...
"Vou –me embora para Pasárgada
Lá sou amigo do rei.
Lá tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei"
...
Para a festa
Com uma velocidade incrível eu cai no abismo
Escuro, sujo e de pouca ventilação. Daqui de dentro eu não consigo respirar, meu peito dói e tenho uma vontade imensa de gritar.
Tenho vontade de rasgar o peito e com a mão direita puxar daqui de dentro essa serpente negra. Tem me sugado.
Não consigo subir. Não tenho forças para caminhar aqui dentro.
É um espaço mínimo, escuro, e não consigo ver saída.
Ouço daqui debaixo vozes lá em cima, passos e risadas. Ninguém me vê.
As pessoas, elas atravessam meu abismo.
Imponentes.
Daqui eu vejo tudo distorcido e só espero minha hora final.
Tenho vontade de voltar a ser feto.
Eu tenho medo de morrer, de perder o controle, de não amar nunca, de perder o emprego, da bomba explodir, do mundo ruir.
Quando estou aqui dentro não tenho forças e nem vontade.
Para dizer ou escrever qualquer coisa.
Fecho os olhos e tento esquecer...
...
"Vou –me embora para Pasárgada
Lá sou amigo do rei.
Lá tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei"
...
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