quarta-feira, abril 02, 2008

caixas

O mundo é pesado e cruel.
Não, não é isso.
É preciso voltar a ser barro
Se perder
É preciso perder a memória, a chave de casa, o rg.
É preciso esquecer quem eu fui.
Voltar
Para dentro do poço infinito que se tornou meu coração.
Olhar para dentro sem piscar, segurar a respiração.
Fazer com que viver deixe de ser tão dolorido.
O mundo todo dói em mim
E eu só penso em parar.
Hoje na rua, depois de mais uma sessão de análise eu caminhava sem olhar para lugar nenhum.
O som no fone de ouvido quase estourava meus tímpanos e eu não ouvia nada além.
Apenas os beatles gritando “strawberry fields forever”.
E a rua toda me pareceu irreal, eu me sentia um personagem desfocado pisando no chão macio.
Pensava no quarto apertado em que eu me transformei.
No trabalho que daria tirar caixa por caixa todas elas, empoeiradas, cheias de teias de aranhas e com segredos e dores obscuras.
Tirar uma por uma
Em passo de tartaruga, olhar cada foto, cada carta, cada telefonema perdido, cada guardanapo guardado com um pouco de boemia e poema.
Eu só pensava em voltar o mais rápido para dentro de mim.
Voltar a ser barro e renascer novo.
É preciso cuidar das plantas do jardim, dos móveis da casa, mandar a cortina para lavanderia.
É preciso mais sol na sala, sobre os livros.
E o mundo a doer nas minhas costas.
É preciso um pouco mais de calma.
E uma dose suave de veneno.

2 comentários:

Luis Gustavo Costa disse...

EDMIRSU!!!
"ÉD" caixa que se constrói uma vida, desde a de fosforo, a junk box,passando pela rua com um emaranhado de edifícios-caixas, chegando nessa que tu citas no texto com um cadeado grandão em que não lembra onde deixou a chave, até o momento em que o que esta dentro dela é maior que a integridade dessa caixa que tu achas de uma beleza infinita... e ae pega uma marreta e destrói o que a prende, assim como a de pandora liberta os males que estavan lá presos na memória.

Mans, André disse...

sinto saudades da sua delicia louca de ser


estou morando em sampa